sábado, 21 de abril de 2012

Again...


"Não basta amar alguém. É preciso amar com coragem. É preciso amar de tal modo que nenhum ladrão, ou má intenção, ou lei, lei divina ou deste mundo possa seja o que for contra esse amor. Não nos amámos com coragem... foi esse o mal. E a culpa é tua, porque a coragem dos homens é ridícula em matéria de amor."


A herança de Eszter, Sándor Márai

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

To N...




O lenço - Henrique Rego, por Tiago Bettencourt


O lenço que me ofertaste
Tinha um coração no meio
Quando ao nosso amor faltaste
Fui-me ao lenço e rasguei-o

(...)

Esse coração bordado
Por triste sina era o meu
Por isso ele morreu
Quando o lenço foi rasgado

(...)

Vejo os sorrisos, afagos
Que me deste, hei-de esquecê-los
Pois os teus doces desvelos
Com meus beijos foram pagos

Teus olhos eram dois lagos
Lascivo era o teu seio
Foi tudo efémero enleio
Breve e fugaz ilusão
Magoaste o meu coração
Fui-me ao lenço e rasguei-o

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Estrela da Manhã
















Morreu o meu avô.
Fiz toda a viagem para o norte a olhar o céu, enquanto escurecia e só ao chegar à casa é que percebi porquê. Foi o meu avô que me ensinou a reconhecer a Ursa Maior (única constelação que sei identificar) e o que ele chamava a Estrela da Manhã "primeira estrela a aparecer à noite e última a desaparecer de manhã" - dizia.
Apesar de ser Janeiro, apesar de estar perto da Serra da Estrela e apesar de estar um frio de gelar, o céu está limpo, azul escuro, com todas as estrelas alinhadas uma a uma, destacadas, minuciosamente dispostas no céu.
Homem de poucas palavras, nos últimos anos tornou-se quase um mestre zen, interrompendo conversas para dizer duas ou três frases que emudeciam todos por longos segundos, ou então lançar um sorriso cúmplice a alguém, enquanto a maioria achava que não seguia a conversa, por não ouvir bem.
Foi ele que me ensinou a encher e a estalar as dedaleiras, que florescem por aqui na Primavera e que me disse de seguida: "Estamos sempre a aprender, até morrer", foi com ele que aprendi a reconhecer fenómenos meteorológicos olhando o céu e a sua cor, ou a disposição das nuvens ao entardecer.

Por isso, avô...descansa nesse céu de fim de tarde, quando o Verão pinta tudo de rosa e vermelho e a brisa espalha as nuvens em farrapos no horizonte; coloca a Ursa Maior bem grande, para que eu (só assim!) a reconheça "quatro estrelas a fazer um quadrado e uma cauda agarrada, como um papagaio de papel" e acende a Estrela da Manhã, para que recorde que a noite tem sempre uma luz forte algures... e descansa.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Soleil couchant (25-11-2002)



Por que tens de ir, nesse vagar morno de fim de tarde? Demora-te mais em mim...

Por que tens de ir, nessa calma desconcertante, ou no repentino beijo de despedida que se dá antes de chorar?

Por que não te espraias nos meus sonhos e dormes comigo pela noite dentro, pela vida fora?

Não vás!!
Fica aí, fica aqui, fica em mim.

Lembrança (30-4-2002)




Tarde.
Aquela luz ténue de fim de dia.
Pessoas que se levantam, que vão para casa depois de um pouco de tranquilidade.
Uma criança que brinca, pedinchando à avó "Só mais 5 minutos!"
Alguém que ri. Alguém que lê. Alguém que pensa. Alguém que diz "Amo-te", provocando um sorriso maravilhoso e a confirmação urgente. Alguém que escreve.
Pássaros. Vento. Um arrepio breve.

Menos pessoas...os que vão ficando, sorvem os últimos raios de sol, numa ânsia de luz, de vida.

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Tarde. Mais tarde.
Aquela luz que anuncia a noite e a solidão de quem ama uma brisa que vem de longe...

Inauguração

O "meu poema".
O meu poema preferido.
O que melhor me define, o que mais sentido faz para mim.
Começo este blog com a homenagem a este texto/poema e claro, a Jorge de Sena, seu autor. Obrigada!
"Uma pequenina luz bruxuleante" - Samuel Úria

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.