quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Estrela da Manhã
















Morreu o meu avô.
Fiz toda a viagem para o norte a olhar o céu, enquanto escurecia e só ao chegar à casa é que percebi porquê. Foi o meu avô que me ensinou a reconhecer a Ursa Maior (única constelação que sei identificar) e o que ele chamava a Estrela da Manhã "primeira estrela a aparecer à noite e última a desaparecer de manhã" - dizia.
Apesar de ser Janeiro, apesar de estar perto da Serra da Estrela e apesar de estar um frio de gelar, o céu está limpo, azul escuro, com todas as estrelas alinhadas uma a uma, destacadas, minuciosamente dispostas no céu.
Homem de poucas palavras, nos últimos anos tornou-se quase um mestre zen, interrompendo conversas para dizer duas ou três frases que emudeciam todos por longos segundos, ou então lançar um sorriso cúmplice a alguém, enquanto a maioria achava que não seguia a conversa, por não ouvir bem.
Foi ele que me ensinou a encher e a estalar as dedaleiras, que florescem por aqui na Primavera e que me disse de seguida: "Estamos sempre a aprender, até morrer", foi com ele que aprendi a reconhecer fenómenos meteorológicos olhando o céu e a sua cor, ou a disposição das nuvens ao entardecer.

Por isso, avô...descansa nesse céu de fim de tarde, quando o Verão pinta tudo de rosa e vermelho e a brisa espalha as nuvens em farrapos no horizonte; coloca a Ursa Maior bem grande, para que eu (só assim!) a reconheça "quatro estrelas a fazer um quadrado e uma cauda agarrada, como um papagaio de papel" e acende a Estrela da Manhã, para que recorde que a noite tem sempre uma luz forte algures... e descansa.

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