domingo, 29 de janeiro de 2012

Soleil couchant (25-11-2002)



Por que tens de ir, nesse vagar morno de fim de tarde? Demora-te mais em mim...

Por que tens de ir, nessa calma desconcertante, ou no repentino beijo de despedida que se dá antes de chorar?

Por que não te espraias nos meus sonhos e dormes comigo pela noite dentro, pela vida fora?

Não vás!!
Fica aí, fica aqui, fica em mim.

Lembrança (30-4-2002)




Tarde.
Aquela luz ténue de fim de dia.
Pessoas que se levantam, que vão para casa depois de um pouco de tranquilidade.
Uma criança que brinca, pedinchando à avó "Só mais 5 minutos!"
Alguém que ri. Alguém que lê. Alguém que pensa. Alguém que diz "Amo-te", provocando um sorriso maravilhoso e a confirmação urgente. Alguém que escreve.
Pássaros. Vento. Um arrepio breve.

Menos pessoas...os que vão ficando, sorvem os últimos raios de sol, numa ânsia de luz, de vida.

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Tarde. Mais tarde.
Aquela luz que anuncia a noite e a solidão de quem ama uma brisa que vem de longe...

Inauguração

O "meu poema".
O meu poema preferido.
O que melhor me define, o que mais sentido faz para mim.
Começo este blog com a homenagem a este texto/poema e claro, a Jorge de Sena, seu autor. Obrigada!
"Uma pequenina luz bruxuleante" - Samuel Úria

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.